Fiz centenas de vezes o percurso entre a Ponta da Praia, em Santos, e a praia do Saco do Major, no Guarujá. Guiando grupos de caiaquistas como aquele dia, umas vinte vezes. Pouco, perto do potencial da canoagem oceânica no Brasil, o que aumenta a importância de saÃdas com turistas ou novos canoÃstas.
Um grupo de ex-alunos do curso básico de canoagem pediu que os guiasse até o Saco, o que seria a primeira remada deles fora da BaÃa de Santos, depois da Ponta Grossa. Entrariam em contato com um mar mais agitado e formação de ondas diferente, e como prêmio, uma praia isolada e de águas claras. Isto tudo em 6 km, perfeito para uma remada de meio dia.
"Ok! Próximo domingo", e me entusiasmei com o fato de serem três novos canoÃstas. No sábado guiei um bote de rafting, e para aquela companhia levava meu próprio kit de primeiros socorros para um grupo de 3 botes. No domingo seria bobagem carregar um kit de primeiros-socorros completo, mas tinha espaço no barco e aquele já estava checado e montado.
O esperado da Ponta Grossa encontramos já na rampa de embarque. O vento sudeste, previsto para o dia seguinte, empurrava pequenas ondas para dentro do canal onde estávamos e agitava o mar. Como as condições de segurança permitiam, combinamos que no meio do caminho se eu entendesse que o certo era retornar, retornarÃamos e pronto.
Minha expectativa era que o vento estivesse "encanado" no estuário, e fora dele a força não seria tanta. Sabia também que virando a Ponta Grossa ele estaria nas nossas costas e mexeria muito mais o mar, mas até lá saberia melhor o ritmo dos alunos, e mesmo que precisasse "abortar", ali eles já teriam feito uma boa remada.
Na Ponta Grossa senti confiança no grupo, alertei que poderÃamos não ter condição de desembarque no Saco do Major, que significava remar 12 km sem sair do barco. Até ali cumprÃamos pouco mais de 4 km e terÃamos 1,5 km de mar agitado, e os mesmos 1,5 km na volta. Ah, contra!
Assisti como lidavam com seus limites e torci para que eles quisessem ir. E quiseram com convicção. O mosquitinho das ondas já os tinha picado. No Saco o cenário era feliz como um Parque Aquático, mas o Toboágua era natural. Ondas de 2 metros que não quebravam, e longas.
Parecia perfeito, a não ser pelo remo de fibra de vidro. Abri mão de usar um remo forte e leve de fibra de carbono para usar um igual ao deles e facilitar a correção de detalhes na remada. Qualquer estúpido com as horas que eu já remei saberia que aquelas pás sofreriam surfando. Claro, quebrei a pá direita a 500 metros da praia e de quebra capotei!
A praia não dava condições de desembarque. E a ondulação naquela situação deixou de ser divertida. O grupo olhava com cara de interrogação e eu conduzia o caiaque como uma canoa canadense, com uma pá só. Precisava de um lugar tranqüilo para resgatar o remo reserva. O cenário não foi pior porque a parte da pá que quebrou – quase toda – ficou presa pelos fiapos de fibra.
Como era bi-partido, cada pedaço do remo ficava encaixado em uma lateral do banco. Enquanto me equilibrava mantinha os três canoÃstas a poucos metros de mim, mas sem encostar, porque a ondulação fazia com que um caiaque batesse no outro. Saquei as partes, montei o remo e o coloquei ao lado do barco por uma fração de segundos, enquanto desmontava o outro para guardar.
Presenciei uma cena única na minha vida: o remo novo afundou!
Lembrei que a Simone Duarte conta em seu livro "Uma mulher, um caiaque e o oceano" que passou por isto, só que ela resgatou o remo em águas claras e pouca profundidade. Eu não sou um mergulhador tão bom como ela e não tinha visibilidade. O vento, a ondulação e a impaciência do grupo aumentavam. A maré grande e a ondulação cobriram a praia. Teria que me virar com aquele remo de pá única, mas não sei como faria os apoios e no trecho da Ponta Grossa o caldo era iminente.
Nada mau para uma remadinha!
Procurei um trecho com menos influência das ondas e com a ajuda de dois remadores abri o compartimento de carga de popa (traseiro) em busca de material que pudesse "emendar" aquela pá, sabendo que o bom e velho silver tape não funcionaria molhado. Agradeci por ter sido um pouco preguiçoso e ter um kit de primeiros socorros completo. Com tala maleável e rolos de atadura!
Enquanto "imobilizava" a pá ponderava se amarrava uma tala na outra pá, para os pesos não ficarem tão desiguais mas, além de poder precisar daquela tala, queria sair dali e levar o grupo para águas abrigadas. Quando comecei a remar senti que chegaria com um ombro perdido se não alternasse a remada e colocasse a pá quebrada do lado esquerdo também, mesmo sabendo que assim o remo estaria de cabeça para baixo.
Com vento e ondas contra, mais o cansaço, o grupo diminuiu o ritmo e passou a remar mais próximo. Sem perder o bom humor assistÃamos as ataduras encharcaram e ficaram pesadas, e sentia que os esparadrapos não agüentariam muito tempo. Precisava chegar pelo menos na Ponta Grossa, onde a ondulação até ajudaria.
Chegando aos últimos 800 metros, justamente o cruzamento do canal do estuário, os esparadrapos soltaram de vez e atravessei este trecho remando com uma pá só, alternadamente. Cansou mais que a volta toda.
Os alunos? Remaram de novo um mês depois para conhecer de verdade a praia, mas até hoje a ida ao Saco do Major que eles mais contam é esta.



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